Lulu Santos perdeu recentemente a ex-esposa, a jornalista Scarlet
Moon. Nos últimos anos compôs álbuns irregulares, longe da genialidade pop que
permeou sua carreira nos anos 1980 e 1990. O “high and dry” em sua história
musical sempre esteve presente.
Já a sua vida pessoal, muito bem reservada, apenas serve de sugestão quando
alguma nota a respeito é publicada. Imagino que apenas os íntimos saibam as
verdades. Isso vem ao caso ou ao acaso? Pode ser, afinal, várias vezes a vida
pessoal interfere na profissional.
Neste presente, após esbanjar carisma como um dos jurados e tutores do
programa The Voice Brasil, Lulu continua como um dos principais compositores
pop que o Brasil possui. Não à toa, apesar de às vezes se mostrar um chato,
ainda movimenta um grande público em seus shows. Os recentes foram dedicados
exclusivamente a reinterpretações de canções de Roberto e Erasmo Carlos. Ele
inverteu totalmente os arranjos dos clássicos da dupla, como “As Curvas da
Estrada de Santos”, “Sentado à Beira do Caminho” e “Quando”. A sua intenção,
confessa, era justamente essa: causar estranheza. E é justamente isso que
funciona, pelo menos agora no lançamento do disco “Lulu Canta e Toca Roberto e
Eramos”.
A obviedade do título está longe da obviedade das músicas. Lulu Santos
sempre se mostrou muito esperto em suas regravações, vide suas intervenções em “Não
Identificado”, do Caetano, “Dê Um Rolê”, dos Novos Baianos e “Fé Cega, Faca
Amolada”, do Milton Nascimento. Regravar por regravar não é com ele. É preciso
recriar. Ponto.
As músicas de Roberto e Erasmo todo mundo reconhece na introdução. Não
precisa de 30 segundos para isso. Mas nas versões feitas pelo Lulu você precisa
aguardar o cantor começar os primeiros versos para conseguir sacar de qual
canção se trata. “Como é Grande Meu Amor Por Você” ganhou um assoviado
delicioso. “Não Vou Ficar” ganhou potência nas guitarras limpas e nas camadas
de teclados.
Esperto que é, Lulu chamou alguns cantores que acompanhou no The Voice
para o ajudarem nos vocais. Mais um ponto positivo, bem como sua encarnação
Chuck Berry em “Festa de Arromba”.
Com um disco de inéditas engavetado, se recompondo de um luto por uma
pessoa importantíssima em sua carreira, tanto pessoal quanto profissional, e o
mais idiossincrático jurado do The Voice Brasil, Lulu ainda tem o que falar,
mesmo que seja em um álbum-homenagem totalmente dedicado a compositores
cansadamente interpretados.
